Existe alguma palavra mais única do que a palavra saudade? Eu defendo que não. A saudade é algo que é universal, mas pessoal, é algo que cada um de nós sente e descreve de forma única.

A música “Saudade”, de Van Zee e Pikika, lançada em 2023, faz parte do álbum do.mar, que reúne diversas colaborações e demonstra uma fase mais madura e emocional de Van Zee.

Em “Saudade”, ambos transbordam a sua leitura deste sentimento de uma forma até um pouco aconchegante, numa música que não fala apenas de amor, mas, também, de tudo aquilo lhe é associado, como o vazio, as memórias e até um certo sentimento de impotência.

As duas vozes trazem perspectivas distintas sobre como se sente a saudade. Enquanto um a vê como um reviver do passado e das memórias, o outro parece senti-la de forma mais presente, quase como uma dor constante. Esta diferença torna a música mais rica, porque mostra que a saudade não é igual e depende de perspectivas, vivências e circunstâncias.

Ao longo da música, percebe-se que não há uma história linear, mas sim pensamentos e emoções soltas, como se fossem memórias que vão surgindo. Isso fez-me pensar que a saudade funciona exatamente assim, não aparece de forma organizada, mas sim em pequenos momentos, às vezes inesperados.

A nível musical, o instrumental calmo ajuda a reforçar essa sensação de introspeção. A batida não distrai, pelo contrário, cria espaço para que a mensagem seja sentida com mais intensidade e reflexão. Na minha opinião, isso é essencial para o impacto da música.

Apesar de não ter sido um sucesso comercial na altura do seu lançamento, “Saudade” teve bastante impacto e ajudou a consolidar o crescimento de Van Zee na música portuguesa. No entanto, acho que o verdadeiro valor da música não está nos números, mas sim na forma como consegue tocar quem a ouve.

“Saudade” é um símbolo de simplicidade e autenticidade. Transborda o sentimento que uma palavra comum carrega, de forma pessoal, complexa e profunda.

“O tempo não me matou a saudade”.