Heaven or Las Vegas e som do sonho
A 17 de setembro de 1990, o trio inglês Cocteau Twins ofereceu ao grande público um álbum que ficaria cravado na história da música como um dos atos mais emblemáticos do pop etéreo alternativo dos anos 90.
Heaven or Las Vegas é o sexto álbum de estúdio deste grupo, considerado como a obra-prima da banda. Contando com um run-time de 37 minutos e 10 músicas, Heaven or Las Vegas combina elementos sonoros com uma mestria tão elegante, onde as palavras se misturam de forma não identificada com o som dos sintetizadores dos anos 80, onde é possível interpretar a letra como bem se quer, pois a voz de Elizabeth Fraser (vocalista) não segue a ordem tradicional da fala, só a ordem desordenada do sentimento.
O que mais cativou os ouvintes do álbum foi esta “flexibilidade” na voz de Fraser. Em entrevistas, a banda reforçou várias vezes a ideia que queriam passar com Heaven or Las Vegas:
“Combinar palavras em diferentes idiomas que não conseguia entender significava que me poderia focar no som e não me prender ao significado. (…) Tudo é som do começo ao fim.” Entrevista de 1993 para a Mondo 2000.
Fraser queria fazer da sua voz um instrumento e não uma “guia” que conta histórias. E o resultado foram faixas sonoras abertas à interpretação, com um sentimento tão individual, com letras tão pessoais e ao mesmo tempo sem qualquer individualidade. Só o sentimento, só o som conta a história que embora tenha palavras, não tem sentido nem rumo.
A faixa que melhor expressa o som do álbum é a de abertura, Cherry-colored Funk. Transporta logo os ouvintes para um estado de quase sonho, para um sítio onde as palavras não têm qualquer significado. É possível distinguir pequenos vislumbres de sentido, sons que se assemelham a palavras abandonadas em inglês ou até francês, mas não há qualquer história ou um fio condutor. Talvez seja por isso que seja tão enigmática e cativante. Misteriosa. Os sons dos sintetizadores remontam para uma época esquecida, a voz fina e profunda, sobreposta em si mesma preenche e faz com que cada sentido fique em alerta. E este sentimento não se prende a uma só faixa, mas viaja por todo o álbum, como um sonho febril.
Heaven or Las Vegas combina, então, atmosferas mais pesadas com sons mais leves, sons que flutuam e palavras que fogem. Acabando com uma das canções mais sombrias “Frou-frou Foxes in Midsummer Fires” o grupo fecha o álbum merecendo uma salva de palmas de pé.
Embora este álbum emblemático do grupo inglês Cocteu Twins tenha chegado às mãos do grande público no início dos anos 90, continua a ser, nos dias atuais, um dos álbuns que melhor caracterizam o pop etéreo alternativo do final do século XX, estabelecendo-se como um dos atos mais importantes no género e ainda procurado por ouvintes dos dias de hoje.

