A 13 de novembro de 1987, Sisters of Mercy oferecia ao mundo o seu segundo álbum de estúdio, Floodlands, emergindo dos recantos mais sombrios. Com um grupo inteiramente novo de artistas, sobrando apenas o vocalista Andrew Eldritch como membro “sobrevivente” a guerrilhas e desentendimentos, a banda cativou não só a atenção do seu público habitual, como cimentou o seu nome como um dos grupos mais influentes do rock gótico dos anos 80.

Seguindo o sucesso comercial do primeiro álbum, First and Last and Always, Andrew Eldritch decidiu fazer o impensável: desfazer-se dos integrantes da banda. Após vários desentendimentos entre Eldritch e os restantes membros que pavimentavam canção atrás de canção o caminho dos Sisters of Mercy, apenas chegaram ao segundo álbum o próprio Eldritch e Doktor Avalanche, a máquina de percussão da banda. Este último, mesmo que quisesse fugir, não iria lá muito longe.

Vendo-se sozinho no meio da subida vertiginosa ao estrelato e com várias demos de canções gravadas, Eldritch foi trazendo para debaixo do manto da sua banda, na altura de um homem só, nomes que hoje ficaram “colados” ao que são os Sisters of Mercy. Entre eles, destaca-se Patricia Morrison, a baixista que roubou a atenção dos holofotes, tanto ou mais do que Andrew Eldritch.

Morrison não era nova nas andanças, tendo ela própria formado bandas e participando noutras ao longo do final dos anos 70 e inícios de 80. Mas foi ao lado de Eldritch que realmente o seu nome foi notado, reconhecido e memorizado até aos dias de hoje, vários anos após ter abandonado a banda. Foi tão fulcral para o desenvolvimento criativo e sonoro de Floodland, que aparece na própria capa do álbum, ensombrecida na atmosfera misteriosa da arte que o acompanha.

Mas o contributo de Morrison não se deixou ficar pelo design gráfico de uma mera capa; Eldritch até lhe dedicou uma canção, Lucretia My Reflection, um dos temas mais reconhecidos do grupo. Neste tema, Eldritch compara Patricia à figura histórica de Lucretia Borgia, uma mulher de negócios italiana do tempo renascentista, filha ilegítima do papa Alexandre VI e uma mulher conhecida pela sua mestria, por vezes questionável, no ramo político. A faixa sonora explora, tal como todo o álbum, a queda de impérios, o preço do poder e o próprio fascínio do vocalista com mulheres poderosas, mas de moral questionável. Assim, logo nos primeiros segundos de Lucretia My Reflection, o baixo de Patricia Morrison é o primeiro som a chocar de frente com o ouvinte, criando automaticamente a atmosfera perigosa que perdura do inicio até ao fim do álbum.

Outro tema igualmente poderoso, que explora também a temática da queda de impérios e guerras é “Dominion” / “Mother Russia”, a primeira canção do álbum, fortemente inspirada pelo desastre de Chernobyl e dos perigos inerentes para a antiga URSS e a própria Europa. This Corrosion, outro tema igualmente forte e em parte uma chapada de luva branca aos membros antigos do grupo, não abandona a temática já vincada, mas relembra que às vezes as quedas são lentas, corrosivas até.

Floodland foi o empurrão nas costas de uma banda que se teve de reinventar vezes e vezes sem conta, de se levantar como os impérios destruídos pelo tempo e pelos caprichos corrosivos. De uma ponta à outra, dos primeiros segundos da primeira canção até ao fecho da última, há uma sensação de perigo, de se estar num campo minado, à mercê de um império a ruir por cima da cabeça desprotegida, (talvez uma premonição do que viria a acontecer à banda?). Das letras intensas, aos sons pesados do baixo, ao sintetizador tão característico da década, misturando o som assustador e imponente de coros, os Sisters of Mercy criaram um álbum que definiu um tempo específico de uma subcultura específica.