Reforma Antecipada: um breve retrato do estado da educação em Portugal
“Olhe lá, mas o que é que está a sugerir? Que somos nós quem temos que educar o nosso filho?”
Foi a pergunta que, em forma de insinuação, Rita Cabaço, ao interpretar uma encarregada de educação, fez a Bruno Nogueira, o diretor da escola. A questão acima surgiu no sketch “Reunião de pais” da série “Ruído”, uma ideia original do humorista português Bruno Nogueira, transmitida na RTP1.
Em “Reunião de pais”, Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington e Rita Cabaço protagonizam uma cena que ilustra o estado atual da educação das nossas crianças. Bruno Nogueira representa o diretor de uma escola que se vê com um problema em mãos — o de alertar os pais da criança sobre as atitudes que esta tem na escola. Por sua vez, Gonçalo Waddington e Rita Cabaço personificam os pais modernos. Aqueles que colocam uma venda nos olhos e cuja ingenuidade e passividade se tornaram o mantra da educação que dão aos seus filhos.
Sei bem que há exceções e ainda bem que as há, mas, como se costuma dizer: “é a exceção que confirma a regra”. Nem todos os pais são assim; há uma parte que continua a educar os seus filhos da forma “como devem ser educados”, mas há uma outra parte que se despediu das funções que começam muito antes do nascimento da criança.
O que noto é que os pais têm vindo a baixar os braços nesta difícil luta por educar os seus filhos. Demitem-se e entregam as chaves da educação aos telemóveis. Assinam a carta de demissão e entregam-na ao patrão sem medir as consequências que daí podem advir. Admito que não deve ser fácil. Há crianças e crianças, mas será que devemos desistir por considerar a tarefa desafiadora? A resposta é não. Ainda para mais quando se trata de uma criança, de um potencial adulto, que tem toda uma vida pela frente.
Esgotamento Parental: uma desculpa ou o verdadeiro retrato dos pais portugueses?
A passividade destes pais — ilustrada pela recusa em assumir o comportamento dos filhos na escola — pode não ser apenas falta de vontade ou falta de conhecimento na educação dos seus filhos, mas um sintoma do que a ciência chama de Esgotamento Parental (Parental Burnout). Como explicam as investigadoras Mikolajczak e Roskam no seu artigo “Esgotamento parental: Mudando o foco das crianças para os pais”, a sociedade exigiu tanto dos pais modernos que entraram em colapso.
Para pouparem a pouca energia mental que lhes resta, desenvolvem um mecanismo de defesa: o distanciamento emocional. Não porque não amem os filhos, mas porque os recursos psicológicos se esgotaram. Ainda assim, compreender o fenómeno não significa que devamos aceitá-lo. Não podemos usar o esgotamento como desculpa vitalícia para abandonar a tarefa de preparar potenciais adultos para o mundo.
Creio que é preciso alertar para uma confusão, que não deveria causar quaisquer dúvidas, mas que está completamente enraizada no sistema educativo atual: os pais educam e a escola ensina. Ainda que a escola transmita todo o conhecimento científico e humanístico, é, em casa, que a criança deve reter os valores mais sólidos para uma boa convivência. Não queiramos construir uma casa sem paredes ou ver uma árvore crescer sem raízes. É necessário transmitir os valores mais básicos da mais elementar convivência para, num plano posterior, ensinar o conhecimento científico, literário ou artístico.
Toda a ação tem uma reação
A terceira Lei de Newton, formulada quando o físico inglês estudava as bases da lei da movimentação dos corpos, ilustra a filosofia natural das coisas. O que esperar de um adulto que não absorveu os mais elementares valores morais quando era criança? O que podemos antecipar de um adulto a quem, no passado, foram transmitidos ensinamentos como “leva isto, mas não digas que vais daqui” ou “não digas à tua mãe que te comprei isto. Ela não pode saber”? A resposta, por mais complexa que seja, indica-nos o caminho natural: será um adulto desconfiado, alicerçado na mentira e na manipulação para obter o que quer. Quando a base da educação falha, são as escolas que ficam sobrecarregadas com esta tarefa.
Mas…Vamos aos factos
O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), de 2022, é o mais recente grande estudo cujo objetivo se centra em recolher dados sobre o desempenho, o bem-estar e a equidade dos alunos antes e depois das perturbações provocadas pela pandemia de Covid-19. Participaram mais de 700 mil estudantes de 81 países, mas vamos focar nos resultados portugueses.
Os estudantes portugueses revelaram uma queda abrupta no seu desempenho, tendo o relatório apontado para uma descida de cerca de 20 pontos em Matemática e de 15 na componente de Leitura. Além disso, verificou-se que cerca de 22% dos alunos portugueses tiveram resultados abaixo do nível 2 de proficiência em Matemática, um valor que se revela abaixo da média da OCDE (24,5%). Apesar disso, nem tudo são más notícias: os estudantes portugueses, na componente de Pensamento Crítico, obtiveram a pontuação de 34 pontos (numa escala de 0-60), um ponto acima da média. A quebra foi superior à média europeia, com os especialistas a apontarem para a pandemia de COVID-19 como um dos principais fatores, mas também para a urgência de rever políticas educativas.
A importância do acompanhamento familiar
Um dos pontos que também foi alvo de estudo relaciona-se com o apoio familiar que os estudantes portugueses recebem em casa e o modo como este apoio se traduz no seu desempenho escolar.
Em Portugal, os alunos que afirmaram jantar com os seus pais ou com alguém da família todos ou quase todos os dias, pontuaram, em média, 483 pontos a matemática, enquanto que os alunos que afirmaram fazê-lo apenas uma ou duas vezes por ano pontuaram 395 pontos a matemática. Tendo em conta o plano internacional, Portugal regista o segundo valor mais alto (0,41). O valor deste índice, na média dos países da OCDE, é próximo de zero.
A conclusão é clara: “Em todos os países, os alunos que beneficiaram de um maior apoio das suas famílias referiram um maior sentimento de pertença à escola e de satisfação com a vida, bem como uma maior confiança na sua capacidade de aprendizagem autónoma. Na maioria dos países/economias, estes alunos também referiram sentir menos ansiedade em relação à matemática”, refere o relatório PISA 2022.
Pais é urgente rasgar a carta de demissão
Não podemos continuar a olhar para a escola como uma oficina responsável pela total reparação social dos nossos alunos. Não podemos continuar a exigir que os professores tentem colocar autoridade na escola, quando esta se desfaz rapidamente em casa.
Se é verdade que educar se revela numa tarefa árdua, também é verdade que esta passividade dos pais representa o caminho mais rápido para a destruição dos seus filhos. Educar não é impor regras, mas é também impor limites. Quando uma criança só começa a ouvir um “não” na escola, que futuro se almeja? A escola pode ensinar o que é a lírica camoniana ou calcular a hipotenusa de um triângulo retângulo, mas é em casa que se ensina a ser gente. Não se faz de um dia para o outro, claro que não. Exige tempo, dedicação e presença, que achamos não ter. Exige dizer um “não” na altura certa.
Uma criança sem limites em casa é um adolescente sem rumo na escola e um adulto sem alicerces no mundo.

