Gosto em ver-te
Será que foi isso que, nesses três bem vividos anos, me tentaste ensinar?
Ando há muito para te escrever.
A primeira vez que reparei em ti foi no meu último ano do Secundário – já lá vão uns anos – , numa lista de outras como tu que me agradavam. Apontei-te para último lugar da fila, mas olhavas para mim como quem já sabe o que vai acontecer. Eu desviava o olhar, mas conseguias prendê-lo e, do teu ar altivo, riste-te de mim. Empurraste os anteriores distritos e lá conseguiste passar à frente, num destino que teimaste em desenhar.
Por magia ou por sorte, fui parar a ti e, embora contrariada, fui-me apaixonando sem perceber porquê, afinal, é simples gostar de ti.
És muito bonita e doce, mas fria e pouco dada a retribuir amor. Atrais quantos te querem, agarras-nos por alguns anos, ensinas-nos o futuro, dás-nos a liberdade de ser e, de repente, lanças-nos à nossa sorte. Escrevo no plural, mas falo por mim. Falo por mim, mas sei que somos muitos e que fomos todos apaixonados por ti.
Corri e decorei todas as tuas ruas como se fosses uma pessoa. Viste as minhas inseguranças, contei-te as minhas lamentações e chorei contigo como se fosses a minha melhor amiga. Promete que ainda guardas os meus segredos… Se hoje eu sei que posso tudo a culpa é tua! Agigantaste-me! Ensinaste-me a força, a perder o medo e a vergonha, a falar, a escrever, a pensar. Deste-me as armas todas para que agora eu dispare para o ar. Meteste-me em problemas com o Berço quando carreguei no sotaque e quando, eu que sou de mar e calor, preferi os fins de semana no teu rio e as noites no teu gelo.
Agora, à distância – de quilómetros e de calendário – continuam a ser justas as minhas juras de amor eterno. Continuam a ser gigantes essas serras que acolhem como braços de mãe, o teu chão queimado pelo calor e pelo gelo, a tela verde que se transformava no que me apetecia.
Percebi que te amava quando tu, UTAD, de uma opção te tornaste prioridade. Não sabes ser mediana e é por isso que estás à frente em todas as listas que me saem da boca. Quando eu, ao viajar dessas ruas decoradas para a capital do país, te trago numa bandeira que insisto em erguer. Paro muitas vezes a pensar em ti, sem grande esforço ou estímulo, porque és, de facto, alguém que fica.
Não queria que isto fosse uma carta de amor declarada, nem uma espécie de texto encomendado para te engrandecer, mas é injusto não te reconhecer como das melhores coisas que me aconteceram. Ao encontrar-te, soube o que há em mim. Desculpa-me por não ter acreditado em ti, por desdenhar o teu olhar e por ter dito que não te queria. Obrigada por teres insistido em que eu em ti ficasse, morasse, estudasse e crescesse.
Vou confessar-te um segredo. Já não sou a mesma que conheceste. Enquanto corria pelos teus corredores, sentia-me imparável e pronta para vencer. Aqui, nas portas que me abriste, já não me sinto com tantas certezas. Daqui tudo é maior que esses braços. Será que foi isso que, nesses três bem vividos anos, me tentaste ensinar? Não terei sempre um teleponto, mas a tela verde será, de facto, tudo o que me apetecer. O que é certo é que nunca me prometeste nada e talvez crescer seja isto mesmo. Descobrir que há vida lá fora, mas que há, ainda, um fado para mim que nasceu para lá do Marão.
Serei triste e eternamente apaixonada por ti. És a carta de amor de quem tem em ti a mais bela das histórias que tem para contar e de quem promete sempre, sempre, “cá” voltar.
