Muito mais que um Romance: A Dualidade Dolorosa de “Isto Acaba Aqui
O filme “Isto Acaba Aqui”, baseado no livro de Colleen Hoover, chegou aos cinemas com a responsabilidade de dar vida a uma das histórias mais discutidas da última década. A história gira em torno de Lily Bloom, uma mulher que tenta construir a vida com que sempre sonhou, mas que se envolve num triângulo amoroso complexo. No entanto, o que parece ser uma história romântica moderna rapidamente se transforma num estudo psicológico sobre como o trauma pode ser passado de geração em geração e como as relações abusivas podem ser complexas.
O filme é muito bom porque nos coloca na perspetiva de Lily. Ao contrário de outras produções que mostram logo o abuso, aqui o espetador é seduzido pelo carisma de Ryle, tal como a protagonista. Esta escolha é muito importante para a crítica funcionar bem: primeiro sentimos o encanto, depois o medo. A realização mostra como os sinais de alerta são subtis, e como é difícil distinguir o romance da violência. Isto mostra como muitas vítimas sofrem. A Blake Lively interpreta muito bem a sua personagem. Mostra a fragilidade e a força de uma mulher que precisa de decidir quando o amor acaba e começa a proteção de si própria.
No meio deste caos emocional, o filme mostra que é muito importante termos alguém ao nosso lado que nos compreenda de verdade e que não nos julgue. Esta figura é como um porto de abrigo, alguém que conhece as nossas marcas e o nosso passado, e que nos permite relaxar quando o mundo exterior se torna ameaçador. A ajuda de alguém que não nos critica, mas que nos mostra o nosso valor, é o que muitas vezes nos leva a ser livres. É neste espaço de aceitação incondicional que a protagonista encontra a segurança de que precisa para lidar com a sua dor e finalmente ganhar coragem para mudar o seu destino.
Apesar de abordar temas corajosos, o filme tem algumas falhas. Às vezes, a forma como as coisas são mostradas, que é muito “polida” e parece um catálogo de moda ou uma rede social, não parece ficar bem com a seriedade dos temas. Para alguns críticos, esta “romantização visual” pode fazer com que uma realidade feia e destrutiva pareça mais suave do que é. Além disso, na segunda metade do filme, parece que as emoções se desenvolvem mais depressa do que no original. Isto faz com que algumas decisões pareçam menos importantes.
No fundo, “Isto Acaba Aqui” cumpre a sua função mais importante: a de gerar conversa. Este filme não é apenas sobre encontrar o amor, mas também sobre ter coragem para o abandonar quando ele se torna perigoso. A obra tem um embrulho muito bonito para um conteúdo tão cru. Não dá respostas fáceis e mostra que é difícil acabar com ciclos familiares. É uma visão necessária, não pela beleza das flores de Lily Bloom, mas pela força das suas raízes.
