“The Florida Project” um filme à margem do sonho americano
Realizado por Sean Baker, The Florida Project é um retrato cru e gratificante da infância vivida à margem do tão conhecido “sonho americano”. O filme acompanha Moonee, uma menina de seis anos que vive com a mão, Halley, num motel económico pintado de cores vibrantes, o que transmite uma das mensagens do filme: a realidade dura de que a fantasia e a precariedade podem coexistem no mesmo espaço. O motel onde vivem é localiza-se nos arredores do parque Walt Disney World, o que gera, ao longo do filme, situações evidentes de desigualdade social e embate de realidades.
Numa narrativa fora do normal, onde a pobreza poderia facilmente ser explorada como espetáculo, o realizador opta por uma abordagem quase documental, privilegiando momentos aparentemente banais do quotidiano que representam puros choques de realidade para o espectador. Diversos aspetos, como a movimentação dos atores e as posições de câmara, reforçam essa autenticidade, criando interações cruas e orgânicas.
Moonee que vive num mundo onde prédios abandonados se transformam em castelos, estacionamentos são territórios de aventura e cada dia de verão parece infinito. Contudo, por trás dessa imaginação esconde-se uma realidade marcada pela instabilidade económica, negligência e exclusão social. A sua mãe, Halley é simultaneamente protetora e irresponsável, vítima de um sistema desigual e de decisões impulsas. O filme não julga nem romantiza, limita-se a apresentá-la como o resultado de um contexto social que falha em lhe oferecer alternativas. É nessa ambiguidade moral que reside grande parte do filme e que nós leva a refletir sobre o que nos rodeia.
A interpretação de Willem Dafoe, nomeado ao Óscar de Melhor Ator Secundário é digna de destaque e assume-se como coração moral desta narrativa. No papel de Bobby, o gerente do motel, funciona como uma espécie de guardião silencioso que impõe limites às crianças, mas que também demonstra uma genuína preocupação pelo seu bem estar. Esta personagem representa uma forma discreta de como alguém pode fazer a diferença na vida do outro sem procurar reconhecimento.
Um dos maiores méritos do filme é a forma como retrata a infância. Moonee e as outras crianças não são apresentadas como vítimas passivas, mas sim como exploradoras do seu próprio universo e realidade. Riem, correm, inventam jogos e vivem a verdadeira inocência infantil. No entanto, à medida que o filme avança, essa bolha começa a mostrar fissuras e tal como na vida real culmina num final abrupto e emocionalmente impactante. É um encerramento que realmente divide opiniões, mas reforça a ideia de que a infância é o último reduto de liberdade num contexto de liberdade constante.
Num tempo em que a imagem vendida do sucesso continua a esconder realidades desconfortáveis, The Florida Project obriga-nos a olhar para aquilo que muitas vezes escolhemos ignorar. Sem respostas simples, confronta-nos com questões urgentes sobre desigualdade, responsabilidade coletiva e empatia. É um filme que permanece no nosso pensamento depois dos créditos finais, precisamente porque não encerra o debate, mas sim o inicia.
Ver The Florida Project é aceitar um convite para sair da zona de conforte e da experiência cinematográfica normal, e reconhecer que mesmo à sombra dos maiores símbolos de fantasia, existem histórias reais que merecem ser vistas, ouvidas e compreendidas.

