Recentemente, Portugal tem sido afetado com fortes tempestades que estão a deixar um rasto de destruição incalculável, ao ponto de levarem o país a declarar Situação de Calamidade. Para já, são conhecidas dez vítimas mortais, dezenas de feridos, milhares de pessoas com a vida em suspenso, casas e infraestruturas destruídas, inundações, falta de água e luz há mais de uma semana principalmente nas zonas de Leiria, Coimbra e Santarém. Esta tempestade é apelidada de Depressão Kristin, mas estima-se que o mau tempo não dará tréguas tão cedo, seguindo-se a Depressão Leonardo.

Uma sensação generalizada de vulnerabilidade marca os últimos dias do país, pois é nestas situações que percebemos o quão mal preparados estamos para prevenir estragos maiores e agir rapidamente. No entanto, para além da força da natureza, a tempestade expôs uma outra fragilidade: a forma como a política portuguesa reage e comunica em momentos de crise, sobretudo quando estes coincidem com períodos eleitorais.

Em plena campanha de uma segunda volta histórica para a eleição do Presidente da República, o sofrimento das populações afetadas acabou por se misturar com discursos políticos, visitas mediáticas e declarações polémicas. O que deveria ser um momento de contenção, empatia e foco na resposta de emergência transformou-se, em vários casos, num palco de afirmação política. A proximidade das eleições parece ter pesado tanto quanto a gravidade da situação vivida no terreno.

Um dos episódios mais mediáticos foi protagonizado pelo deputado e candidato à presidência da república, André Ventura, que em visita às zonas afetadas, fez rapidamente incendiar o debate público. Frases como “que se lixem as eleições”, ditas enquanto decorria uma campanha eleitoral ativa, foram interpretadas por muitos como mais um exemplo de populismo e aproveitamento político da tragédia.

Tornou-se, ainda, alvo de mais críticas quando se gravou e publicou nas redes sociais, a colocar packs de água numa carrinha de doações de bens alimentares para as zonas afetadas. Mostrou-se emocionado e muito proativo, mas as lágrimas não se viram e nenhum dos bens foram doados por si, tal como a carrinha transportadora.

Estes acontecimentos geraram indignação e revolta na população, especialmente nas vítimas da tempestade. Gonçalo Lopes, presidente da Câmara Municipal de Leiria teceu duras críticas ao poder político, alegando ter visto nos últimos dias “um carrossel de pessoas” que agem “como se Leiria fosse um jardim zoológico”. Sem referir nomes, afirmou que reconhece um aproveitamento por partes dos políticos para fazer campanha e considera uma “ofensa” ao que estão a passar. Por outro lado, comentou o episódio de André Ventura com muito desagrado, “Quando alguém quer oferecer meia dúzia de garrafas e depois se filma a trazê-las numa carrinha…É ridículo”, acrescentou.

Fonte: Observador.

Fonte: Observador.

Por outro lado, o primeiro ministro, Luís Montenegro, esteve no centro da polémica, após declarações consideradas infelizes, relativas às vítimas mortais. O chefe do governo manifestou os sentimentos e as condolências “para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida”, referindo-se possivelmente a quem tentou reparar os estragos nas próprias casas, subindo aos telhados mesmo quando não era recomendado, num ato claro de desespero. Mais tarde, foi confrontado pelos jornalistas mas optou por não responder – o silêncio tornou-se ensurdecedor para quem espera uma palavra de conforto da parte do estado português.

Em contextos de crise, as declarações políticas carregam um peso ainda maior e devem ser minuciosamente escolhidas para evitar interpretações distintas. As palavras ou a ausência delas causam muito impacto.

A tempestade tornou-se em mais um episódio, num ciclo de indignação momentânea, que tende a desaparecer assim que a normalidade regresse ou quando surgir outro tema na agenda mediática. A cidade de Leiria sabe exatamente o que isto significa depois dos incêndios devastadores de 2017 e da repetição dos mesmos cenários ano após ano. São feitas inúmeras promessas, por parte dos políticos, de apoio, reconstrução e prevenção futura que acabam sempre levadas pelo vento.

A cobertura mediática acompanhou de perto cada momento, alternando entre imagens de destruição e declarações políticas. Tal como aconteceu noutros episódios de crise, o foco concentrou-se no imediato em quem disse o quê, quem visitou que local, quem falhou na comunicação. Mas aquilo que não se vê é um debate sobre políticas públicas de ordenamento de território, investimento em infraestruturas resilientes ou estratégias de adaptação às alterações climáticas – temas verdadeiramente essenciais num país cada vez mais exposto a fenómenos extremos.

Fenómenos como a Depressão Kristin serão, ao que tudo indica, cada vez mais frequentes e intensos e a natureza não se importa se ocorrem durante uma campanha política ou não. A questão que se coloca não é apenas como reagimos quando a tempestade chega, mas o que fazemos antes e o que aprendemos depois.

Num momento decisivo para o futuro político do país, a forma como os líderes lidam com a crise diz tanto ou mais que os seus programas eleitorais, porque a empatia, responsabilidade e visão a longo prazo não deviam existir só em contexto de tragédia. As eleições passam mas as consequências da falta de preparação ficam, assim como muitas vidas em suspenso. A tempestade expõe, deste modo, os discursos disfarçados de solidariedade e um espírito de entreajuda “egocêntrico”. No meio da destruição causada, ficou claro que a demagogia continua a ser mais resistente do que qualquer infraestrutura em Portugal.