O silêncio que não cala.
Nos dias de hoje fala-se muito das alterações positivas e negativas que os meios digitais trouxeram para a nossa vida. Entre os aspetos negativos, são frequentemente mencionados o isolamento social e as dependências criadas. No entanto, uma das maiores perdas desta era passa, muitas vezes, despercebida: o silêncio.
Este silêncio não se resume apenas à falta de ruído, mas também à falta de atividade. Atualmente, o ser humano (principalmente os mais jovens) não vê o silêncio como algo pacífico ou um momento de relaxamento. Pelo contrário, é visto como algo quase ameaçador, que nos assusta, que nos deixa sozinhos com os nossos pensamentos intrusivos e negativos. Para combater isso, torna-se cada vez mais comum estudar ou tomar banho a ouvir música, ter refeições a dar scroll nas redes sociais ou deitarmo-nos sem conseguir adormecer por nos perdermos entre posts e mensagens.
A verdade é que isto está diretamente ligado à velocidade com que vivemos hoje em dia. A todo o momento estamos à procura de um estímulo, movemo-nos pela dopamina e por algo que nos distraia, como se o silêncio tivesse deixado de ter lugar nas nossas rotinas. Quem nunca esteve com um grupo de amigos e, quando a conversa acaba, teve o impulso quase automático de pegar no telemóvel?
Contra mim falo, sou uma vítima desta necessidade constante de atividade. Necessidade essa que, ironicamente, contrasta com outros fenómenos que vemos, como o aumento da procrastinação.
Acredito que, infelizmente, os momentos completamente a sós, onde a nossa única companhia é a nossa, perderam a magia e passaram a algo a ser evitado.
Em suma, a mensagem que fica para todos que lerem isto é simples: normalizem o silêncio. Normalizem o não fazer nada, porque, por vezes, isso já é fazer muito.

