“Se me fosse a lembrar de tudo o que já me esqueci mais aquilo que eu nunca
soube…”. Fica ao critério do leitor escolher o final desta frase. Ouvi-a durante uma
conversa que tive com uma amiga minha. Estávamos na esplanada a ver o mundo
passar, quando, sem estar a contar, ouvi esta bela frase que é motivo de longas
gargalhadas e de recordações futuras.

Ficámos a pensar nela durante algum tempo e ainda hoje, de quando em vez, nos
assalta a memória. Recordo-me dela sobretudo pela dimensão humorística que lhe é
inerente, mas também pelo pendor filosófico que carrega — o problema da filosofia
do conhecimento. “ (…) mais aquilo que eu nunca soube…” Afinal, como sabemos as
coisas?

Já muito antes, Sócrates, Platão e Aristóteles e outros filósofos abordaram o tema do
conhecimento, mas a verdadeira construção do edifício do conhecimento só começa
a ser edificada muito mais tarde, no século XVII, por René Descartes. O filósofo
francês foi responsável por colocar tudo em dúvida até mesmo as ciências que nos
parecem indubitáveis como, por exemplo, a matemática. Segundo Descartes, a
hipótese de existir um génio maligno que nos manipula os pensamentos já é mais do
que suficiente para questionar todo o conhecimento a priori, isto é, aquele que não
provém da experiência, mas antes da razão, do intelecto.

Além disso, considerava também que os sentidos humanos eram capazes de
distorcer a realidade e causar uma ideia ilusória acerca daquilo que pensávamos
conhecer: estava em curso o argumento da ilusão. Chegou a um ponto em que tudo
à sua volta carecia de fontes de justificação e, por isso, nada podia ser conhecido,
uma vez que nada era uma crença real, verdadeira e justificada.

“Como é possível? Então, não conheço nada?”. A verdade é que a dúvida sempre foi
uma recorrente no pensamento cartesiano e é a partir dela que Descartes vai
construir todo o edifício do conhecimento. O filósofo rapidamente se deu conta de
que ao duvidar de tudo, não poderia duvidar do que estava a duvidar. Seria uma
contradição. Concluiu que pensar era um ato que requeria, necessariamente, um ser
pensante e disso não tinha dúvidas. Ora, se pensar exige um ser que pensa, então,
necessariamente esse ser tem que existir. Estava assim descoberta a única verdade
da qual era impossível duvidar. O famoso cogito, ergo sum — Penso, logo existo.

Do outro lado do ringue está David Hume, o filósofo escocês, do século XVIII, com
uma visão totalmente contrária à do seu antecessor francês. Cumprimenta o seu
oponente e lança um ataque inesperado — todo o conhecimento provém da
experiência. Ora, sei que na página 15 do manual de Matemática se fala na conceção
geométrica do quadrado. “Como é que sei isto?”. Bom, porque me lembro. A partir
daí, afirmo que tenho conhecimento com base no que vi, no que me recordo. A
experiência de ver algo já basta para justificar o que conheço. “Sei, porque vi.”. A
experiência, caro leitor, para David Hume é a origem deste conhecimento.

Somos uma tábula rasa pronta a adquirir conhecimento através das experiências
sensoriais, ou seja, não nascemos ensinados.

“Se me fosse a lembrar de tudo o que já me esqueci (…)” Estávamos nós bem. Ou
não. A verdade é que o cérebro apaga informações antigas para dar espaço a que
novas venham. Manda para a reciclagem do nosso supercomputador. Falta saber se
as elimina permanentemente ou se as deixa lá, nos interstícios da nossa massa
cinzenta. Contudo, isso já é outra história. É uma forma de otimizar e de manter o
cérebro capaz de se adaptar a novos conhecimentos.

Pondo tudo isto em cima da mesa, caro leitor, lanço-lhe esta simples questão: teria
alguma piada se soubéssemos tudo? Isto é, seria maravilhoso lembrarmo-nos de
tudo o que já nos esquecemos mais daquilo que nunca soubemos? Talvez. Não digo
que não. Mas eu cá prefiro continuar com a minha “douta ignorância”, ou seja, saber
que nada sei por completo e, por isso, continuar nesta frenética busca pelo
conhecimento. Espelho-me nas palavras de Alberto Caeiro, o nosso eterno
guardador de rebanhos:

“Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…”