Já para o final da sua vida, o escritor americano Charles Bukowski foi apelidado como a “personificação de um dedo do meio levantado”. Inconformista, revoltado e considerado controverso nos tempos que correm, continua ainda hoje a ser procurado por milhões de leitores. As suas obras, repletas de violência, álcool e retalhos de uma vida à margem da sociedade continuavam a cativar curiosos por todo o mundo, que consideram o passar das páginas o cometer de uma transgressão, passar para o lado de lá e viver, através do papel, como os marginalizados vivem.

Nasceu a 16 de agosto de 1920, numa pequena cidade alemã. A sua infância foi marcada, literalmente, pelo cinto do pai e pela obsessão deste último com a relva bem aparada, tormento que se torna evidente nas suas obras. Inevitavelmente, Bukowski reflete sobre a sua infância, afirmando que foi um horror com H maiúsculo. Mesmo já na América, o seu segundo país, o cariz violento do pai e a passividade muda da mãe não o salvaram da sua própria miséria. Aos 13 anos, já era um bêbado assumido.

Nos seus livros, sempre semiautobiográficos, Bukowski, no meio de tantas mulheres e amantes, acaba sempre por se amarrar ao álcool; a sua perpétua paixão, que não batia com as portas nem deixava os sapatos espalhados ou o atendedor de chamadas atulhado de histerismo. Nas suas próprias palavras, “Nunca escrevi um poema em que estivesse totalmente sóbrio.” De entre mais de sessenta obras publicadas destacam-se Pão com Fiambre, a sua obra mais autobiográfica de todas; em Pão com Fiambre, cada página é um álbum de memórias da vida do escritor, através de Henry Chinaski, que passa pelos traumas reais da infância de Bukowski, pela adolescência cheia de rejeições até à inevitável e autodestrutiva idade adulta. Mulheres, álcool, violência e um sentimento de nunca estar no sítio certo foram pintados no papel como um autorretrato de uma vida onde nunca foi a prioridade de ninguém e ninguém foi a sua. Já em Pulp, a sua última obra publicada postumamente, Bukowski veste a pele de um detetive privado, Nicky Belane, que procura alguém que já faz muito tempo está morto, mas que a Senhora Morte, como lhe chama, afirma não estar. Enquanto brinca com a sorte, tenta travar uma mulher extraterrestre que ser serve dos homens e faz deles o que bem lhe apetece, tendo planos de grandiosidade para acabar com a humanidade na sua mente pervertida. Seja através de narrativas cortantes e chocantes ou de poemas diretos e violentos, Bukowski nunca se pintou com cores que não eram as suas. Se a sua vida pedia para ser retratada, era em tons de sangue-vivo (que era também a cor do vinho, do batom das mulheres que o importunavam.)

Quase se tornou jornalista. Quase. O seu ódio a estar rodeado de pessoas empurrou-o para a máquina de escrever. Acabou por se publicar e estriar-se no mundo literário já aos cinquenta anos.

Mas se os humanos não lhe despertavam qualquer interesse, e havia certos buracos que nem o álcool ou o som da máquina conseguiam preencher, então era nos gatos que depositava o seu amor. Só através dos seus poemas sobre felinos e em raras entrevistas em que mencionava estes animais é que era possível ver a outra face do “velho nojento”: um lado mais meigo, mais apaixonado. Mas rapidamente se escondia por detrás da máscara da rudeza e da indiferença.

Quer se goste ou não, Charles Bukowski, vestido de vários nomes como Henri Chinaski ou qualquer outra sua personagem, afirmou-se onde mais ninguém se quis afirmar: ao lado daqueles que não tinham ninguém ao seu lado. Colou-se aos bêbados, tornando-se num, juntou-se às prostitutas, tendo-se relacionado com muitas e brincou aos sem-abrigo, sobrevivendo dividido entre a ânsia de acabar com tudo e entre a vontade quase maníaca de ganhar as apostas mais altas nas corridas de cavalos. E pegou no que viu, misturou tudo e deu ao mundo a visão invisível de uma América esquecida e abandonada.

Na sua campa, as palavras “Don´t Try” estão gravadas na pedra. Como repetiu várias vezes ao longo das suas obras, “Não tentes. Se não te é natural, não tentes.” Foi a sua filosofia e a sua forma de viver.

Morreu a 9 de Março de 1994, com mais de sessenta obras com o seu nome, sem “tentar ser” o autor polido que se esperava que fosse na época, sem tentar ser um inconformista conformado.

Sem tentar ser uma mentira.