Existem livros que lemos por ler, para passar simplesmente o tempo, e livros que nos marcam de forma profunda. “Nadar no Escuro”, a obra de estreia de Tomas Jedrowski, escritor alemão de 41 anos, pertence, inegavelmente, à segunda categoria.

Jedrowski, através da sua escrita poética e altamente lírica, que suaviza a crueldade dos acontecimentos, transporta-nos para os anos 80 de um dos estados satélite da União Soviética — a Polónia.

No início da década de 80, era o país com a maior dívida externa do mundo, com um valor que rondava os 28,5 bilhões de dólares, o equivalente a mandar construir mais de 200 estádios da Luz ou 2 850 pontes 25 de abril.

O romance que vos trago hoje não revela apenas um retrato de uma história de amor que teve de sobreviver à política repressiva da altura; é um espelho devastador e excruciante sobre a identidade e o custo da liberdade num mundo onde se exige que tudo esteja em conformidade.

Entre a ideologia e o desejo

Vive-se no crepúsculo do comunismo polaco, num cenário de fome e censura constante. É neste palco, escuro e cinzento, que Ludwik e Janusz se conhecem. Uma história que começa com um mergulho idílico de verão — longe dos holofotes do Partido — transforma-se, rapidamente, numa luta pela sobrevivência moral.

O escritor coloca-nos no limbo entre os dois protagonistas, que, além de espelharem o conflito interior que sentem, retratam as duas faces de uma nação em agonia: Ludwik personifica a sede da Verdade, é aquele que busca a liberdade, ainda que incerta. E, por outro lado, Janusz, figura do pragmatismo trágico, escolhe seguir os ideais e as configurações do Partido. Acredita que o consegue moldar e esconder-se dentro dele, mas não percebe que o sistema acaba sempre por o moldar primeiro.

O amor desigual e a exigência de compromisso

A obra revela uma melancolia que se pauta na desigualdade do amor entre os dois jovens. Ludwik ama com urgência, como se o tempo escorresse por entre os espaços dos dedos. Já Janusz ama como quem espera pelo perigo, com a cautela de quem teme perder o seu lugar à mesa do poder.

Publicado em 2022 e editado pela “Clube do Autor”, Nadar no escuro relembra-nos que a nosso maior ato de resistência está na coragem de sermos inteiros, mesmo quando tudo à nossa volta exige que nos fragmentemos.

 

“Não podemos pedir que nos amem como queremos ser amados.”