Vivemos mergulhados num fluxo contínuo de informação. Notificações que vibram no bolso, vídeos que surgem em sequência automática, opiniões transformadas em manchetes e as próprias manchetes moldadas para gerar reações imediatas.

De facto, nunca foi tão fácil aceder a conteúdos, no entanto, também nunca foi tão difícil distingui-los. A abundância não trouxe necessariamente esclarecimento. Pelo contrário, trouxe ainda mais ruído. Neste contexto, defender a literacia mediática como disciplina obrigatória no currículo escolar não é um capricho académico nem uma moda pedagógica, mas uma necessidade estrutural para a saúde da democracia e para a formação de cidadãos livres.

Ora, a escola tem acompanhado as transformações tecnológicas com maior ou menor rapidez, só que continua a privilegiar a aprendizagem instrumental (saber ler, escrever, calcular) como pilares fundamentais. No entanto, ler já não é apenas decifrar palavras num manual. É, também, interpretar imagens, perceber enquadramentos, identificar intenções e reconhecer manipulações. Hoje, quem não domina o ecossistema mediático está vulnerável. Vulnerável a notícias falsas, a discursos extremistas embalados em estética apelativa e a narrativas simplistas que exploram o medo ou a indignação.

Neste sentido, há que lembrar que literacia mediática não se resume a ensinar a “detetar fake news”. Essa expressão, repetida até à exaustão, simplifica um problema complexo. Trata-se, antes, de desenvolver pensamento crítico, consciência ética e capacidade de contextualização. Um aluno que compreende como funciona uma redação, que distingue opinião de informação, que reconhece a diferença entre fonte primária e comentário, está mais bem preparado para participar na vida pública. Está, sobretudo, menos exposto à manipulação.

A verdade é que, num país onde o consumo de informação se faz, cada vez mais, através de redes sociais e plataformas digitais, a ausência de formação estruturada nesta área é um vazio preocupante. Muitos jovens informam-se exclusivamente por vídeos curtos, memes ou comentários avulsos. O algoritmo, invisível e silencioso, seleciona por eles. A consequência é a criação de bolhas informativas que reforçam crenças pré-existentes e reduzem o contacto com perspetivas divergentes. Assim sendo, a literacia mediática obrigatória permitiria desmontar esse mecanismo, explicando como funcionam os critérios de relevância, o impacto dos dados pessoais e a lógica económica que sustenta as plataformas.

Há quem argumente que a escola já está sobrecarregada e que não há espaço para mais uma disciplina. É um argumento compreensível, mas insuficiente. A questão que aqui se prende não é acrescentar mais uma matéria decorativa; é integrar uma competência transversal que atravessa todas as áreas. Tal como se defende a educação para a cidadania, para a saúde ou para o ambiente, também a relação com os media merece um espaço estruturado. O contacto diário com informação molda comportamentos, escolhas políticas e visões do mundo. Ignorar essa dimensão é deixar a formação cívica incompleta.

Além disso, a literacia mediática pode ser uma ferramenta de combate à desinformação e ao populismo. Não se trata de impor uma visão única ou de filtrar conteúdos segundo critérios ideológicos. Trata-se de ensinar a questionar. Quem produziu esta informação? Com que objetivo? Que fontes são citadas? O que está ausente? Que linguagem é utilizada? São perguntas simples, mas poderosas. E quanto mais cedo forem incorporadas no percurso escolar, maior será a probabilidade de se tornarem hábitos permanentes.

Outro aspeto frequentemente negligenciado é o impacto emocional da informação. As notícias não são apenas dados, são, simultaneamente, narrativas que despertam sentimentos, tais como medo, revolta, empatia e/ou indignação. A compreensão desse impacto é essencial para evitar reações impulsivas e julgamentos precipitados. Assim, a literacia mediática pode ajudar a reconhecer estratégias de dramatização, títulos sensacionalistas ou imagens escolhidas para amplificar emoções. Não se trata de eliminar a emoção, que é, naturalmente, parte integrante da experiência humana, mas de, pelo menos, tentar equilibrá-la com análise racional.

Há também uma dimensão ética que não pode ser esquecida. Os jovens não são só consumidores de informação, como também são, eles próprios, produtores. Publicam fotografias, escrevem comentários, partilham conteúdos. Muitas vezes, sem plena consciência das consequências. Logo, uma disciplina dedicada à literacia mediática permitiria discutir responsabilidade digital, privacidade, direitos de autor e impacto reputacional. Ensinar que cada partilha tem peso, que cada palavra pode ter alcance inesperado, é formar cidadãos mais conscientes.

Além do mais, a obrigatoriedade desta disciplina teria ainda o mérito de reduzir desigualdades. Nem todos os alunos têm em casa um ambiente propício ao debate informado. Nem todos dispõem de orientação familiar para interpretar acontecimentos mediáticos. A escola, enquanto espaço de equidade, deve garantir que todos partem com ferramentas mínimas para navegar no espaço público, isto é, a literacia mediática pode funcionar como nivelador social, oferecendo competências que não dependem do contexto económico ou cultural de origem.

É importante sublinhar que esta formação não deve assumir um tom moralista ou paternalista. O objetivo não é, logicamente, ensinar o que pensar, mas como pensar. E, atenção, que a diferença é substancial. Uma abordagem bem estruturada promove autonomia intelectual, incentiva o confronto de ideias e estimula a argumentação fundamentada. No fundo, num tempo marcado por polarizações extremas, essa capacidade de diálogo informado é um bem precioso.

A resistência a esta proposta pode também surgir do receio de interferência política nos conteúdos. Contudo, esse risco existe em qualquer área ligada à cidadania. Por isso, o desenho curricular deve ser transparente, plural e ancorado em princípios universais, como o rigor, a verificação, a diversidade de fontes e o respeito pela liberdade de expressão. A literacia mediática não pode nem deve ser instrumento de doutrinação, mas, sim, garantia de independência crítica.

Olhar para o futuro sem integrar esta dimensão na educação formal é aceitar que as novas gerações aprendam, sozinhas e por tentativa e erro, num ambiente digital cada vez mais sofisticado. A inteligência artificial, os conteúdos sintéticos, as imagens manipuladas com elevado grau de realismo tornam a distinção entre verdadeiro e fabricado progressivamente mais difícil. Quanto mais avançada a tecnologia, maior deve ser a preparação humana para a interpretar.

Defender a literacia mediática como disciplina obrigatória é, no fundo, defender a própria democracia. Uma sociedade informada de forma acrítica é terreno fértil para a manipulação. Uma sociedade capaz de questionar, comparar e contextualizar é menos vulnerável a discursos simplistas e soluções milagrosas. Numa frase, a qualidade do espaço público depende da qualidade do olhar dos cidadãos.

Deste modo, não basta confiar na boa vontade das plataformas nem na autorregulação dos media. A responsabilidade é coletiva, mas começa na formação. A escola tem o dever de preparar para a vida em comunidade, e essa vida é hoje indissociável do universo mediático. Ignorar esse facto seria perpetuar um desfasamento entre o que se ensina e o mundo real.

Por fim, há que dizer que, como é óbvio, tornar a literacia mediática obrigatória não resolverá todos os problemas da desinformação ou da polarização. Todavia, será um passo firme na direção certa, um investimento a longo prazo na maturidade cívica e um sinal claro de que a educação acompanha o tempo em que vive.

Em suma, num cenário em que a informação circula à velocidade de um clique, a verdadeira liberdade não está apenas em poder aceder a tudo, mas em saber escolher. E essa escolha aprende-se, pelo que a escola não pode ficar à margem dessa aprendizagem.