channel ORANGE: A sequência de amores fracassados que renderam um Grammy a um cão.
Lançado em 2012, channel ORANGE é o álbum de estreia de Frank Ocean. Com 17 faixas, aborda uma vida amorosa controversa, tocando em temas como vícios e religião, ao longo dos seus 55 minutos de duração (nas plataformas digitais).
A faixa introdutória Start é bastante simples, com algumas conversas fora de contexto e o som de início da PlayStation 2.
A primeira parte do álbum conta com as faixas Thinkin Bout You, Sierra Leone e Sweet Life. Nestas, Frank relata um estilo de vida “de sonho”, sem preocupações e ligado à natureza, com várias referências à praia (“Got a beach house I could sell you in Idaho”, “So why see the world when you got the beach?”) e, obviamente, a destinos paisagísticos como a Serra Leoa, país africano conhecido pelos seus céus cor de rosa.
Nesta parte, está, ainda, presente Fertilizer, um pequeno interlúdio que soa como um anúncio televisivo ou programa de rádio antigo, mantendo a temática presente no título do projeto.
Chegamos então à faixa número 6 Not Just Money, um pequeno áudio de alguém que age como figura materna e é contra a sobrevalorização da vida luxuosa, afirmando que o foco principal não deve ser o dinheiro, mas sim a felicidade (“It’s not just money/It’s happiness”).
Já a segunda parte do álbum mostra o impacto desta mensagem na cabeça de Frank. Em Super Rich Kids é exatamente isso que é relatado. A mensagem principal é quase um “Temos dinheiro, mas só isso” (“Super rich kids, with nothing but loose ends/Super rich kids, with nothing but fake friends”).
As faixas seguintes (Pilot Jones e Crack Rock) introduzem o ouvinte à companheira do narrador, uma mulher que tem claros problemas com a droga e outros vícios. A relação dos dois parece estar quase a cair por terra, visto que já perderam o que tinham em comum (“We once had things in common/Now the only thing we share is the refrigerator”) e vivem em constante conflito, porque a parceira de Frank não gosta do seu estilo de vida preguiçoso (“You can’t get up and get a job”) e ele está farto das dependências da companheira (“I just don’t know why/I keep on trying to keep a grown woman sober”). Em Crack Rock é, ainda, mencionado o estado de Arkansas, conhecido como a capital da droga Crack.
O fim da relação acontece em Pyramids. A faixa que está dividida em duas partes apresenta primeiro o lado do cantor, que mostra a sua preocupação com o facto de terem roubado e depois matado a sua “musa”, que ele compara a Cleópatra (“They have killed Cleopatra”). Esta morte não foi física, mas sim da “alma” dela, como se ela se tivesse transformado noutra pessoa.
A segunda parte é contada pelo homem que a “matou”, um Pimp que a põe a trabalhar num clube noturno em forma de pirâmide (“She’s working at the pyramid tonight”) e mantém relações com ela. Nota ainda a diferença nela ao longo do tempo, visto que ela já não consegue amar “de graça” (“but your love ain’t free no more”).
Frank e “Cleópatra” reencontram-se em Lost. Ele nota um desgosto da antiga companheira na nova vida, sente que ela está, como o nome indica, perdida, deixando de ir trabalhar por não aguentar mais – atitude que criticava nele (“And I just wanna know/Why you ain’t been going to work”). A faixa termina com Ocean a tentar recuperá-la e tirá-la dessa vida, ainda que seja por um curto período de tempo (“Nothing wrong with another short plane ride/Through the sky/You and I”).
A história é interrompida com White, um interlúdio instrumental por John Mayer.
Chega então a terceira parte do álbum, introduzida por Monks. Esta mostra um estilo de vida mais exótico por parte de Frank, durante uma tour, onde ele acaba por conhecer uma fã que lhe desperta interesse. Nesta parte são, também, frequentes menções à religião, começando pelo nome desta música (“monges” em inglês) e pela referência a figuras como Dalai Lama e a templos budistas.
A história continua em Bad Religion. Desta vez não se trata de uma religião verdadeira, mas sim de um “one-man cult”, nome que o narrador dá à sua paixão não correspondida (“It’s a bad religion to be in love with someone who could never love you”). Para ter ajuda a lidar com isto, Frank recorre a um sensei em Pink Matter, que questiona se ele realmente a ama ou se só a quer como um objeto (“What is your woman?/Is she just a container for the child?”). Após uma longa conversa, Ocean mostra-se revoltado, indicando que a pessoa que ele está apaixonado só é boa a ser má (“You’re good at being bad/You’re bad at being good/For heaven’s sake, go to hell”).
Forrest Gump fecha a história do álbum com um final feliz. Nesta, Frank incorpora o personagem representado por Tom Hanks no filme com o mesmo nome da faixa, mas canta como uma nova companheira, desta vez que o apoia (fazendo o papel de Jeny no filme). A faixa termina com uma espécie de declaração amorosa para “Forrest”, com frases como “This is love/I know it’s true”.
De um modo geral, este álbum explora vários sentimentos comuns quando se fala sobre relacionamentos amorosos, mostrando ainda que, no fim, existe sempre alguém destinado a nós. Frank Ocean conseguiu passar esta bonita mensagem com uma fluidez e coerência fascinantes, acompanhadas por uma sonoridade incrível e que consegue parecer atual até aos dias de hoje, 14 anos depois.
Porém, a parte mais curiosa deste projeto não está na tracklist, mas sim na ficha técnica. Frank não queria autointitular-se de produtor executivo do seu primeiro álbum (ainda que tenha desempenhado esse papel), então decidiu creditar essa função ao seu cão Everest. A história só melhora quando, em 2013, channel ORANGE vence o Grammy de Melhor Álbum Urbano Contemporâneo, tornando assim Everest o primeiro (e, até hoje, único) cão com um Grammy no currículo.

