Ainda antes da última badalada, na véspera do ano novo, as redes sociais já estavam inundadas com as “previsões” para 2026. Os supostos entendidos na matéria acreditam que este ano, que agora dá os primeiros passos, vai ser o ano analógico.

Recuando um pouco, tentei perceber o porquê. Porque é que as pessoas estão a sentir a necessidade de voltar ao analógico? A resposta não é muito simples, mas não está assim tão distante: com tantas redes, não somos donos de nada. (Irónico, não é?)

Mesmo assim, há um certo sarcasmo em tudo isto: proclamar que 2026 é o ano analógico através de um meio tecnológico como as redes sociais. Não deixa de ser um tanto curioso. Mas mesmo assim, não me surpreende que as pessoas estejam a querer (e digo querer, porque ainda há bastante para desenrolar) afastar-se do online. Será um ato de rebeldia ou um ato performativo de pequenos nichos na Internet, algo para levar para a frente ou que morrerá num instante, como as milhões de trends cansativas? Quanto mais se aprofunda o tema, mais perguntas surgem.

Voltando à questão das “redes”. Com a popularização do streaming, das plataformas de áudio e das redes sociais, tornamo-nos donos de bibliotecas de vento: nada nos pertence, nada existe. Nos serviços de streaming, estamos à mercê de catálogos em constante mudança, nas plataformas de música, a mesma coisa e por aí fora. Já não existe o aspeto físico de possuir algo. A segurança de ter. E de ter quando se quer, sem ter de recorrer às redes, ao online, às vontades económicas dos grandes grupos do entretenimento. Os DVDs, CDs, e outro qualquer formato físico estão a ganhar pó em feiras de velharias, porque, como sociedade, trocamos o ter as coisas pela ilusão de as ter, com a ideia de que agora temos mais e melhor! Mas e se tudo fosse apagado (como já vimos ser possível), se o mundo ficasse às escuras? Quem ainda possuiria os formatos físicos que em menos de vinte anos negligenciamos?

Existe, agora, uma geração inteira que nunca teve um leitor de cassetes em casa. Uma geração que nunca teve de trocar as pilhas de um rádio com leitor de CDs. Uma geração que nunca teve de andar com o fio dos auscultadores às voltas para conseguir ouvir uma canção num leitor de MP3 barato. Existe uma geração inteira que tem o “catálogo” da sua vida nestas redes. Redes estas que, como não existem no mundo físico, ou seja, não as conseguimos meter na estante para mais tarde, sofrem a possibilidade de desaparecer.

Mais um dos motores que pode ter impulsionado o 2026 como o ano analógico é o facto de ser quase impossível não estar conectado: trabalho, escola, tudo está ligado e conectado, sendo impossível viver com sucesso à margem. Talvez a saturação de conteúdos de IA também tenha potencializado este “desapego” numa era tão digitalizada. Mas, e penso que foi aqui que se encontrou um buraco por onde fugir, o entretenimento não precisa de estar na rede: permite-se assim à cabeça descansar. Nos dias que correm, não estar ligado é um luxo.

Portanto, ter as coisas em formato físico, sentir o que consumimos e saber que mesmo que o mundo se apague e se desconecte, ainda temos algo a que nos amarrar, é importante. Fotos em papel, livros, DVDs, CDs, rádio… todos estes objetos obsoletos, mas que no final das contas, quando o que achamos seguro falha, estes salvam.